Vinte anos depois
Há quase vinte anos, quando decidi criar este blogue, a internet era um lugar muito diferente. As redes sociais estavam longe de ter a influência que têm hoje, os blogues viviam um dos seus melhores momentos e escrever sobre a nossa terra era uma forma de participar na vida da comunidade.
O objetivo nunca foi apenas noticiar acontecimentos. O que me motivava era observar, questionar, discutir e ajudar a pensar o futuro da freguesia. Falava-se das obras, das decisões da Junta, das associações, das festas, dos problemas e das oportunidades. Concordava-se umas vezes, discordava-se outras. Mas havia debate. Havia participação. Havia interesse.
Entretanto,
passaram quase vinte anos.
Muita coisa
mudou.
Mudaram as
tecnologias, mudaram as formas de comunicar e mudaram também as pessoas e as
instituições. Espinhel deixou de ser uma freguesia autónoma para integrar a
União de Freguesias de Recardães e Espinhel. Foram realizados investimentos
importantes, melhoraram algumas infraestruturas e surgiram novas realidades que
ninguém imaginaria no início deste século.
Mas, no meio
de tantas mudanças, não consigo deixar de fazer duas perguntas:
A nossa freguesia está melhor ou pior? A comunidade está hoje mais viva ou mais adormecida?
Não procuro
dar respostas definitivas. Limito-me a partilhar uma percepção que tenho
ouvido repetidamente nos últimos anos.
Existe entre
muitas pessoas um sentimento de afastamento. Um sentimento de que as decisões
acontecem longe dos cidadãos. Um sentimento de que os problemas do dia a dia
nem sempre encontram resposta. Um sentimento de que já não vale a pena
participar porque nada muda.
Se esta
percepção corresponde ou não à realidade, é uma discussão legítima. Mas há algo
que me parece evidente: quando as pessoas deixam de falar da sua terra, deixam
também de contribuir para a sua transformação.
Talvez o
fenómeno mais preocupante não seja a falta de investimento ou a ausência desta
ou daquela obra. O mais preocupante poderá ser a diminuição da participação
cívica.
As associações
continuam a desempenhar um papel fundamental. São elas que, muitas vezes,
mantêm viva a identidade das nossas aldeias, promovem cultura, desporto,
solidariedade e convívio. Se existem na freguesia várias instituições com imensa atividade, outras enfrentam dificuldades cada vez maiores
para encontrar dirigentes, voluntários e novas gerações dispostas a assumir
responsabilidades.
Este não é um
problema exclusivo da nossa freguesia. É um desafio que se sente em muitas
comunidades. Ainda assim, não deixa de ser preocupante.
Uma terra não
vive apenas das suas infraestruturas.
Uma terra vive
das suas pessoas.
Vive da
capacidade de discutir ideias, de apresentar propostas, de questionar quem
governa, de reconhecer o que está bem feito e de exigir melhor quando
necessário. E não pode ser só de quatro em quatro anos que a sociedade (ou parte dela) se mobiliza. É no dia-a-dia que se vê a verdadeira vitalidade e o interesse da sociedade pelo bem comum.
Ao longo
destes vinte anos aprendi uma coisa simples: o desenvolvimento não depende
apenas dos eleitos. Depende também dos eleitores. Não depende apenas das
instituições. Depende igualmente da comunidade que as rodeia.
Talvez por
isso tenha sentido vontade de voltar a escrever.
Não porque
tenha respostas para todos os problemas.
Não porque
pretenda dar lições a ninguém.
Muito menos
porque acredite que o passado foi melhor do que o presente.
Volto a
escrever porque continuo a acreditar que uma comunidade ganha quando existem
pessoas dispostas a pensar sobre ela.
Volto a
escrever porque continuo a acreditar que a participação cívica faz falta.
Volto a
escrever porque continuo a acreditar que as terras não morrem quando enfrentam
dificuldades. As terras começam verdadeiramente a perder-se quando os seus
habitantes deixam de se interessar por elas.
O D'Espinhel
regressa assim ao ponto de partida: observar, refletir e partilhar opiniões
sobre a nossa terra.
Sem nostalgia
excessiva.
Sem agendas
escondidas.
Sem a
pretensão de ter razão.
Apenas com a
convicção de que vale sempre a pena continuar a conversar sobre o lugar onde
vivemos.
Porque vinte anos depois, continuo a acreditar que o futuro de uma comunidade começa precisamente aí: na participação dos seus cidadãos.

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